LIVRO DE DANIEL: PEDRADA ANTICAPITALISTA – do CEBI-MG, set./2026

Ê, República de parentes pode crer
na nova Babiblônia eu e você
Somos só carne humana para moer…
E o amor não é para nós!
Mas, nós temos a pedrada para jogar,
a bola incendiária está no ar:
fogo nos racistas!
Chico César, Pedrada
E fogo em toda estrutura e sistema de opressão que geram silenciamentos, apagamentos, deslocamentos forçados,
feminícidos, violência… morte (aquela imediata e a dada lentamente, com a fome ou a escala 6×1). É a partir desta realidade
que, no ano de 2026, somos chamados, convocadas a ler, estudar, aprofundar o livro de Daniel para o mês da Bíblia.
Nós que somos do CEBI-MG, da caminhada do movimento bíblico libertador, que tentamos, com nosso esforço
militante e comprometido a responder aos desafios e urgências da nossa história, sabemos que ler a Bíblia nunca será um
exercício neutro.
Contra toda pretensa nossa opção ética-hermenêutica é a de lutar com a Palavra, desconfiar, suspeitar, dos usos (e
abusos) do texto biblíco para fazer descobrir o conflito, os de ontem e os de hoje.
Se o fundamentalismo paralisa a crítica e encobre, subsumindo num caldo neutro e requentado pela rotina de
uma pastoral biblíca genérica e covarde, a gente tenta promover um encontro fecundo entre a trama que compõe o texto
da Bíblia e o tecido que faz nosso corpo (pessoal, social, do mundo).
Para isso, a educação popular: quando na nossa conversa bíblica não faltam as perguntas e questões que tocam no modo de produzir e reproduzir a Vida. Esta tarefa biopedagógica-teológica não é fácil nem cômoda: habitamos o aperto, a perversidade da luta de classes, o lugar sufocado da fronteira, o entremeio, experimentando e compartilhando com as maiorias pobres e trabalhadoras aquele desespero de não saber como irá sobreviver à semana.
Deste (não)lugar, a gente precisa (de precisão), alguns mundos. A gente fala e a pronúncia da nossa vez vem do chão em que a gente pisa. Onde pisam os pés, a cabeça pensa e sente o coração: está. Cada ser- da-cultura é um mundo peculiar, próprio. A cultura existe como acontecimento, imaginário, afeto, visão de vida, das relações, das identidades.
Nossa Educação (e nossa leitura bíblica) é Popular não somente porque lançamos mão de métodos e metodologias que facilitam a participação; nem porque é uma tendência da moda, «trend», nem muito menos uma roupagem acadêmica neutra e despolitizada, mas porque conhecemos e reconhecemos que nosso horizonte hermenêutico se dá a partir de “pessoas postas à margem: os muito pobres, os servos, os excluídos, os migrantes ‘sem eira nem beira’, os aquietados, mas sempre à beira da revolta” (Brandão).
Contra as cômodas e adequadas generalidades, está nossa posição carregada da mais radical intencionalidade. Radical não no sentido de ser extremista, mas no sentido etimológico de superar as injustiças pela raiz. Quando indicamos «educação», pensamos em «popular». Quando falamos em teologias, queremos sublinhar «libertadoras». Quando dizemos Leitura Popular da Bíblia, sublinhamos «revolução».
Quando dizemos “livro de Daniel”, supomos a apocalíptica, a linguagem dos vencidos, que tiveram de inventar sua esperança num momento de esgotamento das possibilidades, de aplastamento, esmagamento de qualquer alternativa.
Quando falamos da pedrinha miúda, dizemos da organização dos sem-poder que, desde a marginalidade, encontram formas de vencer o gigante que pisa forte e cruel.
Quando falamos de novela bíblica, com as apocalípticas (que sempre foram profecias), queremos indicar a necessidade de
se criar imaginários que engendrem novos mundos, com arte, poesia e beleza.
Quando sublinhamos resistência, lembramos dos corpos que valem nada, dos que estão na mira lógica da calculadora depredadora e depravada do capitalismo-patriarcado e das companheiras mulheres que resistem com Susana.
Quando dizemos “mês da Bíblia” não queremos só falar de uma agenda da Igreja Católica, mas da oportunidade de encontro, conversa, discussão, estudo e mutirão… no meio do Povo. Quando falamos Povo, dizemos daqueles que sabem de antecipar bravamente um futuro outro… os palestinos, quem em intifada, com as pedras na mão, nos ensinam sobre coragem e história.
Intifada, com a pedra nas mãos, derrotar os gigantes, em sonho novo, sangue Povo, cantar o amanhã que virá… não porque promessa,
mas porque outros mundos já existem entre nós!
Denis e Thalita,
pela Equipe de Publicações do CEBI-MG
Obs.: Segue, abaixo, em pdf, a íntegra do LIVRO DE DANIEL: PEDRADA ANTICAPITALISTA, do CEBI-MG, Set./2026. Pode baixar gratuitamente, ler e compartilhar. Oxalá a leitura atenta nos inspire nas lutas necessárias pelo que é justo, bom e belo.
Livro de Daniel em PDF Pedrada anticapitalista Texto-base do CEBI-MG 2026